As múltiplas linguagens e a construção da identidade
Maria Alice de Rezende Proença
É fundamental estabelecer relações entre o fazer da criança e as produções artísticas e literárias, a criação de vínculos com determinados autores e artistas, tendo sempre em mente o desafio de oferecer instrumentos à criança para "ler" o mundo das artes e com ele poder interagir
Este artigo busca estabelecer uma relação entre as múltiplas linguagens que a criança usa para se expressar e para se comunicar com o mundo em uma tentativa de compreendê-lo: a brincadeira, o movimento corporal, a arte e a literatura, além do papel da escola como promotora dessas atividades, através da formação de seus educadores.
Segundo Seppi (2000, p. 17), "o brincar a cada dia perde seu espaço na vida das crianças nas grandes metrópoles, criando uma lacuna no desenvolvimento da personalidade infantil e o esvaziamento da formação da identidade cultural, provocando um fenômeno visto como uma desintegração cultural, da mesma forma que isso torna o resgate do brincar um desafio para uma educação que se preocupa com a formação integral do cidadão".
Cabe à escola proporcionar esse espaço em todos os sentidos, pois o brincar é uma atividade fundamental na educação infantil. É necessário repensar o uso do espaço, do tempo e das rotinas para proporcionar aos alunos a oportunidade de experimentar diferentes modalidades de brincadeiras corporais e simbólicas, relacionando-as à arte, à literatura e à música, uma vez que a aprendizagem processa-se como um movimento único e indissociável entre as áreas do conhecimento, mediada pelo corpo da criança.
Nos tempos pós-modernos, tanto a criança quanto o educador estão inseridos em um contexto no qual lidam com uma estimulação externa excessiva, que provoca uma total desatenção ao próprio corpo, aos sentimentos, aos desejos, às percepções e aos limites. Trindade (2003) destaca a importância da criação do vínculo entre o corpo e o movimento, aliado à atribuição de sentido aos gestos, potencializando a capacidade de expressão do ser humano. O autor afirma que, segundo Lowen, o corpo fala, exprime e canaliza emoções, desde que lhe dêem instrumentos para se expressar e uma postura correta.
Baseando-me nas palavras de Wajskop (1995), que considera a brincadeira infantil numa perspectiva sócio-histórica e antropológica, a base genética do brincar e da arte são similares, pois ambas são atividades sociais e humanas, que supõem contextos sócio-culturais, através dos quais a criança recria a realidade com sistemas simbólicos próprios: "não-brincar é a não fruição da imaginação poética, das ricas fantasias significativas da vida" (Seppi, 2000, p. 21).
A brincadeira, a arte e a literatura, mediadas pelo corpo que se move, que comunica o que não é dito com palavras, são linguagens diferenciadas que a criança usa para internalizar o mundo a que ela pertence e exteriorizar a sua percepção do real. São formas de experimentação, de vivências, de sensações e de apropriação da cultura que alicerçam a maneira singular de se estar no mundo. Também viabilizam o contato com as emoções pessoais e do outro, vivenciando relações sociais, negociações, compartilhando a vida em grupo.
A escola, como um espaço de encontros, deve repensar a sua rotina, propiciando um planejamento que contemple as múltiplas linguagens expressivas da criança, preservando momentos de aprendizagens individuais e coletivas, de socialização de decisões, de descobertas, de discussão de opiniões divergentes e enfrentamento de conflitos, assumindo-se, portanto, como um espaço de construção de identidades de sujeitos-aprendizes.
O ponto de partida para o trabalho com a conexão das múltiplas linguagens é a formação dos educadores para que resgatem as memórias de suas infâncias e de suas histórias de vida, como as lembranças dos quintais mágicos e das ruas onde brincavam, além de ampliar seus repertórios nas trocas de práticas pedagógicas com os demais educadores e a coordenação. A nutrição do olhar do educador e a recuperação de seu percurso como aluno favorecem a crença no brincar, no movimento e no trabalho corporal como caminhos de aprendizagem genuínos da criança, além da percepção de que arte, literatura e música possibilitam a construção de conhecimentos significativos e a apropriação da identidade cultural.
A metodologia utilizada com o grupo de professores de educação infantil com o qual trabalho em uma escola particular de São Paulo para operacionalizar essa concepção foi a dos projetos de trabalho, de cunho interdisciplinar, um processo onde o eu convive com muitos outros, em diálogos constituintes de novos conhecimentos. Os projetos são definidos como um "vir-a-ser" (Proença,2003), uma construção coletiva feita no dia-a-dia, na qual o educador é investigador e autor da sua trajetória com as crianças. Cabe a ele organizar os espaços disponíveis, planejar cada passo de seu trabalho com as crianças, observar o seu meio e registrar suas percepções, propor desafios a partir do que constata, avaliar e replanejar o andamento do processo, possibilitando ao grupo desenvolver o sentimento de pertencimento e identificação com o trabalho realizado.
É fundamental estabelecer relações entre o fazer da criança e as produções artísticas e literárias, bem como a criação de vínculos com determinados autores e artistas, tendo sempre em mente o desafio de oferecer instrumentos à criança para "ler" o mundo das artes e com ele poder interagir, expressando-se através das múltiplas linguagens artísticas e literárias, do seu corpo como veículo de brincadeiras, enriquecendo o olhar sensível, a educação estética e o autoconhecimento.
Com esse espaço de expressão, de nutrição do imaginário infantil e de elaboração do mundo interno em conexão com a realidade, a identidade da criança e do educador acaba fortalecida, seus vínculos estreitam-se, dando-lhes a possibilidade de construir projetos de vida, enquanto cidadãos e sujeitos saudáveis, capazes de ressignificar a existência do ser humano através das relações que estabelece com o outro e com a cultura.
Maria Alice de Rezende Proença é doutoranda em Educação e Currículo, mestre em Didática, professora do curso de especialização em Educação Infantil da FMU/SP e diretora da Educação Infantil da Escola Lourenço Castanho/SP.
sexta-feira, 4 de junho de 2010
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Educar um filho
Educar um filho: trabalho de Hércules?
Jacir J. Venturi
Dos doze trabalhos atribuídos a Hércules, o primeiro - matar o leão de Neméia - poderia ser substituído por educar um filho nos dias de hoje e numa cidade grande.
São tantas as vicissitudes, os conflitos e também as alegrias que, ao assumir o papel de pai ou mãe, fecham-se as portas do purgatório. Ao ter um filho, "perde-se o direito de se aposentar do papel de pais". (Tânia Zagury, educadora carioca)
Ser pai ou mãe é:
1) Impor limites. Ter autoridade, sem ser autoritário, para não sucumbir à tirania do filho. A autoridade, quando exercida com equilíbrio, é uma manifestação de afeto e traz segurança. São pertinentes as palavras de Marilda Lipp, doutora em Psicologia em Campinas: "O comportamento frouxo não faz com que a criança ame mais os pais. Ao contrário, ela os amará menos, porque começará a perceber que eles não lhe deram estrutura, se sentirá menos segura, menos protegida para a vida. Quando os pais deixam de punir convenientemente os filhos, muitas vezes, pensam que estão sendo liberais. Mas, a única coisa que eles estão sendo é irresponsáveis".
2) Transmitir valores. O filho precisa de um projeto de vida. Desde pequeno, é importante o desenvolvimento de valores intrapessoais - como ética, cidadania, solidariedade, respeito ao meio ambiente, auto-estima - que ensejem adultos flexíveis e versáteis que sabem resolver problemas e são abertos ao diálogo, às mudanças e às novas tecnologias.
3) Valorizar a escola e o estudo. Os educadores erram sim! E os pais também! Pequenas divergências entre a escola e a família são aceitáveis e quiçá salutares, uma vez que educar é conviver com erros e acertos. O filho precisa desenvolver a tolerância, a ponderação, preparando-se para uma vida na qual os conflitos são inevitáveis. No entanto, na essência, deve haver entendimento entre pais e educadores. O filho é como um pássaro que dá os primeiros vôos. Família e escola são como duas asas: se não tiverem a mesma cadência, não haverá uma boa direção para o nosso querido educando.
4) Dar segurança do seu amor. Importa mais a qualidade do afeto que a quantidade de tempo disponível ao filho. É preciso nutri-lo afetivamente, pois a presença negligente é danosa para o relacionamento. A paternidade responsável é uma missão e um dever a que não se pode furtar. No entanto, vêem-se filhos órfãos de pais vivos. A vida profissional, apesar de suas elevadas exigências, pode muito bem ser ajustada a uma vida particular equilibrada.
5) Dedicar respeito e cordialidade ao filho. Tratá-lo com a mesma urbanidade com que tratamos nossos amigos, imprimindo-lhe um pouco de nós pelo diálogo franco e adequado à sua idade.
6) Permitir que, gradativamente, o filho resolva sozinho as situações adversas. A psicóloga Maria Estela E. Amaral Santos é enfática: "Um filho superprotegido possivelmente será um adulto inseguro, indeciso, dependente, que sempre necessitará de alguém para apoiá-lo nas decisões, nas escolhas, já que a ele foi podado o direito de agir sozinho".
O caminho da evolução pessoal não é plano e nem pavimentado. Ao contrário, é permeado de pedras e obstáculos, que são as adversidades, as frustrações, as desilusões, etc. Da superação das dificuldades advêm alegrias e destarte aprimora-se a autoconfiança para novos embates. Há momentos em que os pais devem ser dispensáveis. Usando uma feliz expressão da psicóloga Lídia Weber (UFPR), "devemos dar-lhe raízes e dar-lhe asas".
7) Consentir que haja carências materiais. Cobrir o filho de todas as vontades (brinquedos, roupas, passeios, conforto, etc.) é uma imprevidência. Até quando vão perdurar essas facilidades? Disponibilizamos prioritariamente aquilo que não tivemos em nossa infância. Mas cabe a pergunta: estamos lhe dando aquilo que efetivamente tivemos e fomos felizes por isso?
8) Conceder tempo para ser criança (ou adolescente). Não se deve sobrecarregar o filho com agenda de executivo: esportes, línguas, música, excesso de lições, atividades sociais, etc. Se queimarmos etapas de seu desenvolvimento, ele será um adulto desprovido de equilíbrio emocional. Nosso filho precisa brincar, partilhar, conviver com os amigos, desenvolvendo, assim, as faculdades psicomotoras e a sociabilização.
9) Desenvolver bons hábitos alimentares e exercícios físicos. A saúde é um dos principais legados e não se pode descurar. Nosso filho será uma criança e um adulto saudável pela prática regular de esportes e pela ingestão diária de proteínas, frutas, verduras, legumes e muita água. Não se pode esquecer o Sol nos horários recomendados. Tais hábitos promovem o bem-estar, a auto-estima e a boa disposição para a vida.
10) Convencer o filho a assumir tarefas no lar. Certamente haverá resistência, mas ele deve ter responsabilidades em casa, assumindo algumas tarefas domésticas, como limpar o tênis, fazer compras, lavar louça, tirar ou colocar a mesa, etc. É indispensável que tenha hábitos de higiene e mantenha arrumado o seu quarto.
Teria Hércules sido bem-sucedido? Em meio a tantas vicissitudes do mundo moderno, você pai ou mãe e eu chegamos, talvez, a um consenso: educar bem um filho corresponde não a um, mas aos doze trabalhos atribuídos ao nosso herói mitológico. Mas vale a pena!
O filho não vem ao mundo acompanhado de um manual de instruções e nem tampouco lhe será concedido um certificado de garantia. Isso posto, educar é conviver com erros e acertos. Mais acertos, proporcionalmente ao diálogo e à ternura.
E para finalizar: nós, pais, educamos pouco através de cromossomos e muito através de "como somos".
******
Jacir J. VenturiDiretor de escola, cidadão Honorário de Curitiba, autor de livros e professor da UFPR (durante 26 anos) e PUC-PR (durante 11 anos)Mais informações sobre o autor no site www.geometriaanalitica.com.br.E-mail: jacirventuri@geometriaanalitica.com.br
Jacir J. Venturi
Dos doze trabalhos atribuídos a Hércules, o primeiro - matar o leão de Neméia - poderia ser substituído por educar um filho nos dias de hoje e numa cidade grande.
São tantas as vicissitudes, os conflitos e também as alegrias que, ao assumir o papel de pai ou mãe, fecham-se as portas do purgatório. Ao ter um filho, "perde-se o direito de se aposentar do papel de pais". (Tânia Zagury, educadora carioca)
Ser pai ou mãe é:
1) Impor limites. Ter autoridade, sem ser autoritário, para não sucumbir à tirania do filho. A autoridade, quando exercida com equilíbrio, é uma manifestação de afeto e traz segurança. São pertinentes as palavras de Marilda Lipp, doutora em Psicologia em Campinas: "O comportamento frouxo não faz com que a criança ame mais os pais. Ao contrário, ela os amará menos, porque começará a perceber que eles não lhe deram estrutura, se sentirá menos segura, menos protegida para a vida. Quando os pais deixam de punir convenientemente os filhos, muitas vezes, pensam que estão sendo liberais. Mas, a única coisa que eles estão sendo é irresponsáveis".
2) Transmitir valores. O filho precisa de um projeto de vida. Desde pequeno, é importante o desenvolvimento de valores intrapessoais - como ética, cidadania, solidariedade, respeito ao meio ambiente, auto-estima - que ensejem adultos flexíveis e versáteis que sabem resolver problemas e são abertos ao diálogo, às mudanças e às novas tecnologias.
3) Valorizar a escola e o estudo. Os educadores erram sim! E os pais também! Pequenas divergências entre a escola e a família são aceitáveis e quiçá salutares, uma vez que educar é conviver com erros e acertos. O filho precisa desenvolver a tolerância, a ponderação, preparando-se para uma vida na qual os conflitos são inevitáveis. No entanto, na essência, deve haver entendimento entre pais e educadores. O filho é como um pássaro que dá os primeiros vôos. Família e escola são como duas asas: se não tiverem a mesma cadência, não haverá uma boa direção para o nosso querido educando.
4) Dar segurança do seu amor. Importa mais a qualidade do afeto que a quantidade de tempo disponível ao filho. É preciso nutri-lo afetivamente, pois a presença negligente é danosa para o relacionamento. A paternidade responsável é uma missão e um dever a que não se pode furtar. No entanto, vêem-se filhos órfãos de pais vivos. A vida profissional, apesar de suas elevadas exigências, pode muito bem ser ajustada a uma vida particular equilibrada.
5) Dedicar respeito e cordialidade ao filho. Tratá-lo com a mesma urbanidade com que tratamos nossos amigos, imprimindo-lhe um pouco de nós pelo diálogo franco e adequado à sua idade.
6) Permitir que, gradativamente, o filho resolva sozinho as situações adversas. A psicóloga Maria Estela E. Amaral Santos é enfática: "Um filho superprotegido possivelmente será um adulto inseguro, indeciso, dependente, que sempre necessitará de alguém para apoiá-lo nas decisões, nas escolhas, já que a ele foi podado o direito de agir sozinho".
O caminho da evolução pessoal não é plano e nem pavimentado. Ao contrário, é permeado de pedras e obstáculos, que são as adversidades, as frustrações, as desilusões, etc. Da superação das dificuldades advêm alegrias e destarte aprimora-se a autoconfiança para novos embates. Há momentos em que os pais devem ser dispensáveis. Usando uma feliz expressão da psicóloga Lídia Weber (UFPR), "devemos dar-lhe raízes e dar-lhe asas".
7) Consentir que haja carências materiais. Cobrir o filho de todas as vontades (brinquedos, roupas, passeios, conforto, etc.) é uma imprevidência. Até quando vão perdurar essas facilidades? Disponibilizamos prioritariamente aquilo que não tivemos em nossa infância. Mas cabe a pergunta: estamos lhe dando aquilo que efetivamente tivemos e fomos felizes por isso?
8) Conceder tempo para ser criança (ou adolescente). Não se deve sobrecarregar o filho com agenda de executivo: esportes, línguas, música, excesso de lições, atividades sociais, etc. Se queimarmos etapas de seu desenvolvimento, ele será um adulto desprovido de equilíbrio emocional. Nosso filho precisa brincar, partilhar, conviver com os amigos, desenvolvendo, assim, as faculdades psicomotoras e a sociabilização.
9) Desenvolver bons hábitos alimentares e exercícios físicos. A saúde é um dos principais legados e não se pode descurar. Nosso filho será uma criança e um adulto saudável pela prática regular de esportes e pela ingestão diária de proteínas, frutas, verduras, legumes e muita água. Não se pode esquecer o Sol nos horários recomendados. Tais hábitos promovem o bem-estar, a auto-estima e a boa disposição para a vida.
10) Convencer o filho a assumir tarefas no lar. Certamente haverá resistência, mas ele deve ter responsabilidades em casa, assumindo algumas tarefas domésticas, como limpar o tênis, fazer compras, lavar louça, tirar ou colocar a mesa, etc. É indispensável que tenha hábitos de higiene e mantenha arrumado o seu quarto.
Teria Hércules sido bem-sucedido? Em meio a tantas vicissitudes do mundo moderno, você pai ou mãe e eu chegamos, talvez, a um consenso: educar bem um filho corresponde não a um, mas aos doze trabalhos atribuídos ao nosso herói mitológico. Mas vale a pena!
O filho não vem ao mundo acompanhado de um manual de instruções e nem tampouco lhe será concedido um certificado de garantia. Isso posto, educar é conviver com erros e acertos. Mais acertos, proporcionalmente ao diálogo e à ternura.
E para finalizar: nós, pais, educamos pouco através de cromossomos e muito através de "como somos".
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Jacir J. VenturiDiretor de escola, cidadão Honorário de Curitiba, autor de livros e professor da UFPR (durante 26 anos) e PUC-PR (durante 11 anos)Mais informações sobre o autor no site www.geometriaanalitica.com.br.E-mail: jacirventuri@geometriaanalitica.com.br
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